Quais seriam as diferenças entre o mahayana e o vajrayana?Enquanto entre o hinayana e o mahayana existe uma diferença fundamental quanto ao resultado — já que o hinayana produz apenas liberação e não iluminação (a primeira sendo alívio definitivo do sofrimento, a segunda incluindo a primeira e adicionando a excelência em todas as qualidades e perfeições) — a diferença entre mahayana e vajrayana se dá apenas com relação ao método.
Assim a perspectiva intelectual dos ensinamentos é a mesma em vajrayana e mahayana, porém os meios utilizados para atualizar o resultado são diversos. O mahayana pode ser dividido em mahayana causal e mahayana não-causal. O mahayana causal é uma forma gradual de prática na qual méritos e sabedoria são amealhados durante um longo tempo, em geral três vastos aeons de renascimentos, e então o resultado é enfim atualizado, como um ponto final após uma longa sentença. O mahayana não-causal, que inclui o vajrayana, entende que o resultado é o ponto de partida da prática — assim méritos e sabedoria são praticados como um adorno do estado natural, e isto atualiza o resultado em no máximo 17 vidas, e no caso dos tantras internos, nesta mesma vida.
Assim como o hinayana é completamente incluído no mahayana, o vajrayana inclui completamente hinayana e mahayana. O que o vajrayana adiciona de próprio são "meios hábeis extraordinários", que surgem da perspectiva do "resultado como ponto inicial". Esta perspectiva permite que todos os métodos do mahayana sejam praticados com grande facilidade, potência e rapidez: isto é, mais eficiência. (Para benefício de todos os seres, é sempre bom lembrar.)
O vajrayana é um assunto delicado exatamente devido a esta facilidade. Há uma armadilha circular nesta facilidade e rapidez: acabamos entendendo que é preciso mérito e sabedoria para reconhecer o resultado como base. O aspirante ao vajrayana vive um "salto quântico" ao tornar-se um praticante vajrayana, já que ele transforma uma mera confiança em seu mérito e sabedoria numa alavanca para produzir mérito e sabedoria. Isso é perigoso nos casos em que essa confiança é fabricada, e o eu acaba subvertendo os meios hábeis do vajrayana para se autoreificar. Neste caso a iluminação fica ainda mais difícil do que para alguém que não tenha contato nenhum com o dharma. Por isso a metáfora usual que recebemos de nossos mestres antes da iniciação é que o vajrayana é como uma serpente que entra num furo ao centro de um bambu — ou ela sai rapidamente de um lado, ou do outro. Ou a pessoa rapidamente atinge a iluminação, ou rapidamente produz infernos particularmente difíceis de resolver.
Já o mahayana não tem nenhum destes riscos, embora não seja comum encontrar o "raio que brilha na escuridão". A idéia de se responsabilizar pela iluminação de todos os seres não é tão simples. Em geral todos nós que nos dizemos praticantes do mahayana na verdade praticamos um hinayana com alguns momentos de mahayana. E muitas e muitas vezes nos vemos aspirantes ao hinayana, por exemplo quando percebemos que sequer a perspectiva da liberação foi internalizada: permanecemos enamorados pelo samsara.
O foco do hinayana é a ética, do mahayana o treinamento da mente, a meditação, a geração de méritos, a compaixão. O foco do vajrayana é a sabedoria. O corpo, fala (energia) e mente de um Buda, suas três mandalas, são expressão exatamente de ética, compaixão e sabedoria. Assim os três veículos (como as três mandalas, os três kayas, OM AH HUNG, etc), podem ser analisados sob uma perspectiva de gestalt, onde cada um contém todos os outros — mas ainda assim cada um mantém certas propriedades individuais.
Se o pré-requisito para o hinayana é entender o samsara e decidir-se buscar o nirvana, e o pré-requisito para o mahayana tomar a responsabilidade pela iluminação de todos os seres, o pré-requisito do vajrayana é entrar num relacionamento pessoal com um Buda.
A analogia é geralmente dos veículos bicicleta, carro e avião. O hinayana é a bicicleta. É simples, econômico, ecológico, relativamente seguro — mas lento, e requer mais força bruta. O mahayana é um carro ou ônibus, você precisa de condições mais complexas: combustível, motorista ou carteira de motorista. Para o avião do vajrayana, por outro lado, você precisa condições ainda mais complexas: a pista não pode sequer ter mais de 3mm de precipitação que é inseguro decolar. As vezes as filas são tão grandes que é até mais rápido ir de ônibus! Porém, quando todas as condições são satisfeitas, e você tem mérito para a classe A, sua viagem é agradabilíssima, e quando você nem está esperando mais, alguns minutos depois, o Buda anuncia pelo sistema de som que você de fato chegou na terra pura onde você mesmo é também um Buda.
Num aspecto externo, e tradicionalmente, os ensinamentos vajrayana só eram concedidos a pessoas com longo treinamento e estudo no mahayana e hinayana. Como estes são tempos de degenerescência, e não dá tempo de fazer este treinamento todo, alguns mestres, por compaixão, tornaram os ensinamentos vajrayana mais acessíveis — provavelmente na esperança de encontrar algumas pessoas com as predisposições adequadas. Ainda assim a maioria dos professores que pratica o vajrayana passa 90% do seu tempo ensinando o mahayana; e isso inclui Sua Santidade o XIV Dalai Lama.
De fato, muita gente espera conseguir praticar o vajrayana sem uma base de shamata, por exemplo. Isso é impossível, e shamata é uma prática que já existe lá no hinayana. Shamata só vai ajudar qualquer prática que a pessoa faça, então não tem erro. É quase como canja de galinha. No mahayana também há muitas práticas que podem ser prescritas, mas daí já é um pouco remédio tarja vermelha, é melhor não se auto-medicar. E os remédios tarja preta do vajrayana só um médico qualificado pode prescrever. Bom, na verdade até shamata pode ter contra-indicações, então sempre é bom consultar um médico qualificado: um professor, um amigo espiritual, um guru.
A urgência e a extrema compaixão de S. Ema. o XIV Chagdud Tulku Rinpoche trouxeram os ensinamentos vajrayana para o Brasil se não pela primeira vez, pela primeira vez de forma aberta e extensa.
...Como seria essa perspectiva do "resultado como ponto inicial"?Em termos técnicos, algumas vezes se diz "a fruição é a base e o caminho". Esse ensinamento não é comum apenas ao vajrayana, o zen também tem seu estilo de usar o resultado como base e caminho.
Esse ensinamento tem suas bases na doutrina do tatagatagharba, isto é, natureza de buda, ou essência do tatagata — que é particular do mahayana, quer dizer, o hinayana não coloca as coisas desta forma. Segundo o mahayana, portanto, a iluminação é o estado natural de todos os seres, que apenas estão maculados adventiciamente por padrões de hábito e não conseguem reconhecer isto.
Para obter este reconhecimento, o mahayana causal desenha uma série de métodos, que dão origem ao caminho gradual. A culminância do caminho gradual é o reconhecimento incessante de uma natureza que não pode nunca ser maculada verdadeiramente. Isto é, não se obtém a iluminação, mas se descobre que a iluminação é a base de toda a experiência "não-iluminada" que antecede esse reconhecimento — e mesmo de todos os outros seres que aparentam estar confusos.
Veja que esse ponto de culminância do caminho gradual está além de dois extremos: do tempo e da causalidade — isto é, o reconhecimento implica que vejamos o nosso não-reconhecimento anterior como um "passatempo" ou brincadeira desta natureza perfeita e livre desde os tempos sem princípio.
O que o vajrayana faz com isso? Ao invés de desenhar um método através do qual a pessoa obtém algum reconhecimento de sua verdadeira natureza, a pessoa passa a tomar como pressuposto "sou um Buda, o que um Buda faz". Nas várias cerimônias de iniciação o mestre aponta exatamente isto — uma fórmula comum que lembro é quando eles nos dão umas vendas, e então o mestre com seu vajra descortina a realidade, e nós retiramos a venda. Isso significa que a partir do momento que tomamos uma iniciação estamos completamente cientes da nossa natureza de Buda imaculada e incorruptível. A partir dela, exercemos as qualidades de um Buda, na forma da prática das perfeições. O mahayana prevê dois tipos de prática das paramitas, uma gradual, na qual somos generosos para revelar a natureza vazia dos objetos, do doador, e assim por diante, e uma resultante ou não-causal, na qual a generosidade brota naturalmente de nossa condição derradeira — não estamos tentando alguma coisa.
O vajrayana então se vale de uma gama imensa de métodos para evitar a quebra de samaya, isto é, a perda desse reconhecimento. Entre estes métodos está a criação de padrões cármicos puros — veja, todos os padrões cármicos, positivos ou negativos, puros ou impuros, são aprisionamentos. Porém, entre os aprisionamentos, há os melhores e piores.
Os melhores são os que possibilitam o reencontro com nossa natureza, ou pelo menos com nosso mestre — ou se nem isso com a sangha, ou com alguma forma de budismo. Daí que esta é a perspectiva correta para nos engajarmos nas múltiplas formas de ritual do vajrayana — criar um aprisionamento puro para darmos o salto ao reconhecimento último.
Enfim, o pior vajrayana é um retorno a um mahayana gradual, e o melhor é o próprio estado de Buda. O treinamento é um pouco o oscilar entre gradual e não-causal: visualizamos a deidade externamente, nos auto-visualizamos, e algumas vezes simultaneamente. Praticamos para reencontrar as qualidades do estado natural, as qualidades do estado natural manifestam a prática, e assim por diante.
Enfim, a prática perfeita do vajrayana é a inseparatividade com a mente do Buda, isto é, tudo que surge é a mandala.
Como perdemos isso, retornamos ao mahayana. Como esquecemos a compaixão, retornamos ao hinayana. Como esquecemos o refúgio, voltamos ao hedonismo à filosofia e outras formas não-espirituais. Quanto a mim mesmo, 90% do tempo eu pratico hedonismo, 9% hinayana e 1% mahayana. Mas eu acho que eu já vi praticarem o vajrayana na minha frente.
Como seria a confiança fabricada, e como seria a não fabricada?A confiança fabricada é uma que surge de uma forçação de barra qualquer. É uma pequena megalomania. "Eu posso" ou "eu sou" dos new age, mas nem precisa chegar a tanto.
Na verdade todos nós temos as duas misturadas, e é preciso praticar e se relacionar com um lama para descascar essa cebola. Somos simplesmente cegos aos nossos padrões de hábito e erros mais sutis, por isso é preciso relacionar-se com alguém que os evidencie.
E eu preciso enfatizar esse "relacionar-se". Trocar emails (com uma pessoa realizada, não comigo) não é suficiente (muito menos comigo). Tudo que eu faço é largar algumas sentenças tentando não dizer que a pessoa está certa ou errada com relação a sua própria visão de si própria (com relação ao que se pode explicar, e que seja externo à pessoa, daí é possível afirmar se está certo ou errado). Mas veja que esse caso da confiança é exatamente isto. Ou seja, a pergunta "sou um aspirante adequado ao vajrayana?" que é semelhante a esse seu questionamento, deve ser feita para alguém que você acredite detém o vajrayana, e a capacidade de revelar suas falhas secretas. Para você saber o quanto de confiança do bom tipo você tem, e o quanto você é auto-enganado, sicofanta, desonesto consigo mesmo, etc, só se relacionando com alguém que tenha superado em boa medida o auto-engano. E de fato, a própria busca e o esforço em identificar tal pessoa manifesta o desvelar de nossas falhas secretas, e possivelmente medicamentos para elas.
Um bom professor sabe usar até mesmo nossa leviandade, porém, nem sempre temos mérito de encontrar bons professores.
O primeiro passo com relação ao vajrayana é encontrar uma fonte de refúgio verdadeira, antes de dar o salto. E depois de dar o salto... bom, daí se a pessoa desperdiça o salto do vajrayana por alguma razão, ela criou "anticorpos" para estes ensinamentos, e vai ser muito muito difícil ela poder usar estes ensinamentos efetivamente.
Por que é dito que os ensinamentos do vajrayana são para poucos?Pouca gente tem mérito para o dharma em geral, mas menos ainda para o vajrayana. Diz-se que o dharma é ensinado em algumas ocasiões, por exemplo, nessa nossa era "boa" haverão mais 998 Budas depois destes quatro cujo quarto é o Buda Sakyamuni. Depois passar-se-ão 100 eras sem nenhum Buda, e então haverá uma era com 84.000 Budas (não me pergunte como eles sabem disso!). E assim vai, passa um tempão sem Buda nenhum, daí aparecem um, 10, uma centena, alguns milhares.
Mas há apenas três momentos em que o vajrayana é ensinado: no primeiro kalpa, neste e no último. Então o vajrayana é um bocado mais raro do que os ensinamentos do mahayana e do hinayana.
As distorções são comuns apenas no caminho vajrayana?Não, até mesmo o hinayana tem muitas distorções comuns. A pessoa pode virar um moralista, pode criar um complexo de santidade. No mahayana pode haver superintelectualização, ou pelo contrário, misticismo exagerado. E o vajrayana pode se transformar numa desculpa para qualquer coisa, ou solidificar os simbolismos e ensinamentos como o resultado, fazendo do próprio dharma um obstáculo.
Isso tudo num nível geral. Num nível pessoal, cada pessoa tem obstáculos comuns e formas peculiares de distorcer os ensinamentos. Descobri-las, como apontei acima, é parte da prática.
Mas eu realmente diria que para qualquer um que entenda refúgio e bodhichitta, o vajrayana não deve er de forma alguma ser recusado se lhe for apresentado. Isto é, se estiver ao alcance da pessoa, ela deve ir. E se ela entende
mesmo refúgio e bodhicitta, mesmo que não pareça no alcance dela, ela deve fazer com que esteja. E depois ela dá um jeito de manter os compromissos.
E a motivação correta é beneficiar todos os seres? Desejar que eles atinjam a iluminação?Sim, essa é a motivação pura do mahayana. No hinayana a motivação é simplesmente abandonar o samsara e ir para o nirvana — eles não tem toda essa confiança de que podem tomar a responsabilidade da iluminação de todos os seres sob si.
Esse salto do hinayana para o mahayana é extraordinário. De certa forma o salto para o vajrayana é pequeno perante este. O vajrayana vai simplesmente criar uma urgência absurda. No mahayana você vai convivendo com o seu malfeitor, o ego, durante muitas vidas, esperando o momento em que ele vai estar fragilizado, daí você espera ter a força e a vontade de cortar a garganta dele. No vajrayana você contrata um assassino de aluguel, que é o guru. Uma vez contratado não tem volta.
Porque entrar em relacionamento pessoal com um Buda é pré-requisito ao vajrayana?É muito difícil você reconhecer a pureza internamente, porque nosso hábito é olhar para fora. O primeiro indício de que a pureza interior está prestes a ser reconhecida, é reconhecer a pureza no exterior.
Assim os ensinamentos do vajrayana não são dados por alguém que esteja no caminho, e sim por alguém que realizou o caminho. Se uma pessoa não reconhece o professor como um Buda, a sangha como uma mandala, e o ambiente como uma terra pura, ela não ouve o vajrayana. Ela ouve o mahayana e mais umas coisas que ela não entende. Ela só ouve o vajrayana quando ela está nesse ambiente com essas pessoas.
Daí você vê como isso é raro..., porém, não tão raro nestes tempos degenerados, devido a compaixão inigualável de Guru Rinpoche. Se você recitar o mantra dele desejando realmente receber estes ensinamentos, para rapidamente revelar o mesmo resultado que ele revelou, para benefício de todos os seres, ele fez um voto de surgir para essa pessoa que chamou por ele, onde quer que ela esteja. Guru Rinpoche não poderia abandonar tal ser nem que ele quisesse. Mesmo se a devoção da pessoa é completamente fabricada, ele sem dúvida manifesta as condições para que todas as delusões se revelem como natureza de sabedoria.
O mantra do Guru Vajra é
OM AH HUNG VAJRA GURU PADMA SIDDHI HUNG
O mérito dessa recitação é dedicado ao pronto renascimento de Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche, uma dramática emanação de Guru Padmasabhava que vigia até mesmo os buracos onde baratas como eu comem suas migalhas.