Emanações — Nirmanakaya por Eduardo Pinheiro
Qual o significado da palavra "emanação" no contexto do Budismo Tibetano? O que se quer dizer com isto?

A essência de todos os Budas é a mesma, e não é diferente da de qualquer outro ser. A diferença entre os seres sencientes como nós e um Buda é que o Buda revelou completamente esta essência.

A diversidade de manifestações do Buda é completamente livre para surgir de acordo com as necessidades dos seres. Assim, a forma de um Buda surge para nós de acordo com nossas peculiaridades.

Enquanto ele apenas manifesta um não-alterar do que é natural e incessante, a realidade nua, não-fabricada, ausência completa de fixações e arbitrariedades, a liberdade se revela em cada evento, fenômeno e particularidade, e isto é o que chamamos "vacuidade". Esse mesmo espaço amplo é o que dá vazão para a compaixão que é a energia ou luminosidade, que preenche completamente este espaço e é indistinguível dele. Para cada forma que surge perante nós como fixação e falta desse reconhecimento, há um Buda correspondente, que é o próprio desvelar daquela mesma forma particular em cognição além de objeto e observador, nessa esfera sem limites e luminosa.

Quando falamos em uma emanação, falamos que ocorreu o reconhecimento de uma dessas qualidades particulares na forma de alguém ou até mesmo alguma coisa. No zen uma das emanações do Buda foi um graveto sujo de cocô.

No caso mais específico de mestres em que reconhecemos um yidam, é simples, eles realizaram a prática daquele yidam completamente. Se pensamos a prática do yidam como algo através do qual a pessoa passa a ser algo que não era, não entendemos a prática do yidam. No vajrayana, quando tomamos uma iniciação o mestre nos diz que somos o yidam, e diz que temos o potencial para realizar o nirmanakaya, o sambhogakaya e o dharmakaya, e enfim o sobhavikakaya e o vajrakaya. Isso quer dizer que através daquela prática vamos revelar as qualidades do yidam no mundo, ou em outras palavras, vamos reconhecer estas qualidades, sempre presentes desde o princípio sem princípio, operando em todos os fenômenos.

O que o vajrayana tem de curioso é o próprio uso da peculiaridade como transcendência. É uma vacuidade "bem humorada" esta que surge com nove cabeças, chifres, trinta e dois braços, dezesseis pernas e em união sexual. Ela surge numa forma bastante específica, para dizer o mínimo, e isso é o aspecto de luminosidade, um não-desperdiçar de oportunidade e um esbanjar de compaixão. Imaginar uma forma geral, uma forma pura, um ponto, algo assim, é, ainda assim, imaginar uma forma particular. Então porque não imaginar uma forma bem particular, que segura um moedor de café na mão? E aquele moedor de café por si só basta como visualização, porque nele, como em qualquer dos outros elementos, está todo o sentido do vajrayana.

Então, quando completamos certas práticas gerais, nosso professor nos dá a prática do yidam. Não devemos contar a ninguém quem é nosso yidam, isso seria frívolo, seria uma gafe, visto que, se ainda não o realizamos completamente, estamos apenas tentando nos promover. De fato, isso vale para qualquer prática e qualquer coisa que fazemos no budismo, o melhor é só comentar com quem participa daquela prática, e no caso do vajrayana e da prática do nosso yidam, apenas com nosso lama.

E pode ser que não seja para aquela vida. Pode levar algumas vidas praticando, mas então revelamos aquelas qualidades representadas pelo yidam. E quando existe uma platéia que usufrui e revela essas qualidades de forma aberta e irrestrita, esse é o sentido de "nirmanakaya" ou do que chamamos emanação.

E então retornamos aos grandes mestres, como estas formas particulares são no fundo de uma só essência, conhecendo-se uma, conhece-se a todas. Realizando uma, realiza-se todas. Diante de uma platéia de seres a serem domados, surge como Manjushri, diante de outra, surge como Avalokiteshvara. Pode ser que nos pareça ter um sabor mais laranja, mas o sabor branco está ali também. E o lama é a fonte de todos os yidams. É o contrário de uma tradição teísta, em que há avatares, seres que manifestam a divindade no mundo. O guru manifesta a divindade unindo o céu e a terra, e ele é o soberano na mandala de todos os yidams.




texto de autoria de Eduardo Pinheiro [Padma Dorje] edu@tzal.org
em http://www.tzal.org/dorje_post-Emanacoes+Nirmanakaya