
Um dos enganos mais comuns com relação ao budismo é seu aspecto transcendente. Isso não é estranho, na medida em que o discurso não é capaz de adequadamente tocar neste assunto, por definição. Porém, é possível sim descrever por via negativa o que está fora do escopo da verdadeira prática da linguagem correta, tanto em termos do apontar direto de pontos essenciais, bem como do que seja meditação equivocada.
O Buda condena a discursividade, porém, ao que exatamente ele se referia quando usava o termo equivalente em sua língua? Sabemos que ele mesmo foi tentado a ficar em silêncio e não falar o dharma, já que quase ninguém viria a entendê-lo. No entanto, sob o pedido humilde do maior dos deuses, que a ele se prostrou e apelou em nome de sua compaixão pelos poucos que talvez viessem a entender, ele decidiu ensinar. Assim, por 42 anos apresentou métodos, combateu doutrinas errôneas e cativou com suas palavras incontáveis seres de bom carma ao longo de 25 séculos. Qual é então a diferença entre o falar corretamente e a discursividade num sentido daninho?
Em termos simples, a discursividade é o que brota de uma mente descontrolada, ou ainda, uma mente cujos objetivos estáveis, claros e vivazes não sejam o bem temporário e último de todos os seres. Já o dharma é o que brota da mente oposta, uma mente completamente imersa nestas qualidades e voltada a estes fins. Porém, quando falamos da maioria das pessoas, percebemos que estamos no nível em que há algum dharma misturado a grande discursividade, e então empreender a tarefa de separar nossos impulsos erráticos do inabalável frescor dos ensinamentos que produzem liberdade definitiva e contentamento pode não ser tão fácil.
Em particular porque trechos desta discursividade cujo fundo é a ignorância concatenam-se em segmentos lógicos, de causalidade impecável, e se não consideramos a origem ou o final destes pensamentos, podemos muito bem vir a pensar que se trata de algo de valor. É aqui que nascem todas as ideologias e opiniões. Simplesmente não reconhecemos que elas têm origens e finalidades embasadas em vícios—que essencialmente se resumem em indiferença com relação a outras possibilidades, vícios emocionais e obsessão.
Por exemplo, até mesmo a idéia da não-conceptualidade pode se tornar, curiosamente, uma ideologia a ser defendida. Afinal, é um caminho aparentemente fácil fechar a comunicação afirmando que ela é inútil. Porém, a não-conceptualidade do Buda não o impediu de falar, como pode isso?
Na prática, toda vez que usamos de um expediente de misticismo fácil como desculpa para preguiça, niilismo ou ideologias várias, cometemos uma dupla traição. Traímos em primeiro lugar a natureza básica inefável ela mesma, cuja espaçosidade permite toda sorte de movimento criativo sem que nada a corrompa. Essa traição tem aparentemente menos relevância, porque afinal de contas, essa é a mesma traição que todos nós, seres não-iluminados, cometemos vez após vez, pensamento após pensamento, até a iluminação (e ela, ao contrário do pensam ideologias evolucionistas e escatológicas, não é garantida para ninguém). A outra traição, porém, é realmente grave. É a traição das sementes do próprio dharma, visto que os seres que necessitam e dependem da linguagem não devem ser abandonados.
Ademais, ao trairmos o dharma como resultado e o dharma como caminho, tampouco encontramos conforto no convencimento de que algo inefável opera. E não porque não opere, mas pelo simples fato de que este inefável postulado, este conceito de inefável, não é nada que possa ser usado de desculpa, e nem nada que alguém possa simplesmente exclamar "Ah" e captar. (Bom, talvez se tiver algum mérito extraordinário e peculiar...)
O taoísmo disse talvez melhor, "o Tao de que se pode falar não é o verdadeiro Tao". Mas apenas falar isso não produz nada de positivo em termos da experiência mística em si. A maioria das pessoas segue achando que meditar é simplesmente "não pensar", e se vierem a praticar, acabarão apenas renascendo como ursos que hibernam, ou pacientes em coma. Se o silêncio e a negação mal-humorada também podem ser a iluminação do Buda, que dirá a afirmação.
Assim, aqueles que pensam mais, que dizemos possuírem uma "mente brilhante", não precisam entorpecer suas mentes para praticar o dharma. Não há necessariamente o imperativo generalizado de que é melhor pensar menos ou mais devagar—muito menos pensar nada. Uma mente com tal brilho pode produzir uma grande discursividade ou um grande dharma que transcende a discursividade. Isso só vai depender da prática correta.
Todas estas cicatrizes que carregamos—histórias, genes, memes, identidades públicas e privadas—não precisam ser escondidas, e não precisamos sequer ter medo da chuva de navalhas destes tempos de degenerescência. Cada um destes atributos deve ser oferecido ao dharma e transmutado em uma interface para com os seres de todos os reinos.
Há budismo que prefira o
low-profile, mas ele não é necessariamente o melhor. Há arrogância na tentativa de subjugar a arrogância. Há agressividade na tentativa de destruir a agressividade. Há ignorância na reificação da forma. O melhor é não desperdiçar o que quer que surja, porque é possível trabalhar com qualquer coisa. Basta não desviar os olhos da presença derradeira da face original.
Qualquer arranjo idiossincrático destas formigas ordenadas em linhas não faz diferença alguma com relação ao ponto essencial. Ainda assim, que um arranjo particular provoque esta ou aquela reação é bastante extraordinário. Deveríamos avaliar nossa responsividade, e reconhecer de onde brota o teor que nos conecta com isto ou aquilo. Avaliando isso com cuidado e aprendendo a sermos senhores de nossas mentes através de shamata e vipassana, tudo em que tocarmos, tudo que falarmos e tudo em que pensarmos se transformará em publicidade viral do dharma profundo, operando invisivelmente de acordo com as necessidades dos seres. Assim, inevitavelmente, o reino puro será reconhecido como este mesmo lugar.
Por outro lado, se traímos o dharma com misticismo barato e discursividade, transformando a não-conceptualidade em obstáculo de comunicação e niilismo, ou perdendo o eixo do benefício duplo para nós mesmos e para todos os outros seres, teremos apenas a velha pilha de cadáveres e o oceano de lágrimas.
Nestes tempos em que o diálogo tem que ocorrer com todos os segmentos e precisamos parar de procurar culpados, é essencial que sejamos treinados nas armadilhas da discursividade. De outra forma, seguiremos consumindo o planeta e as ideologias de massa—e o lixo, conceitual e real, vai seguir nos contaminando por dentro e por fora.