
Sim, no início dedicamos o mérito parcialmente ou incorretamente, daí ser o que chamamos de "prática". O primeiro passo é admitir que o autocentramento existe em todos os seres que não são Budas, portanto, que existe em nós em maior ou menor medida. Admitindo-se isto, passamos a trabalhar com esse autocentramento. Se houver uma sensação de vitória após a dedicação de méritos, dedica-se os méritos novamente, e assim sucessivamente, até que não se tenha uma sensação de vitória. Essa é a vitória dos Budas.
O perigoso seria trabalharmos, de cara, com a idéia de que, já que a natureza búdica é um fato, somos imunes ao autocentramento. Nesse sentido, toda a prática budista é uma hipocrisia, já que é assim mesmo. Porém, o budismo não é um ensinamento para Budas, e sim para seres como nós, que de fato exibimos os sintomas do autocentramento e do sofrimento que ele acarreta. Nesse sentido, não podemos confundir a incorreta dedicação de méritos da correta dedicação de méritos. Isto é, dedicação de méritos não deve servir para aumentar o autocentramento. Se servir, então não é dedicação de méritos, ou seja, a pessoa não soube dedicar os méritos. Daí isso ser uma prática ou treinamento.
Por outro lado, é importante entender que não é incorreto se sentir satisfeito por fazer algo bom. Aliás, devemos nos sentir satisfeitos. Devemos pensar "puxa, como eu sou legal". É só quando esse inocente "eu sou legal" estiver se transformando num motivo de apego ao eu que corta esse apego, e o método para fazer isto é justamente a dedicação de méritos. Assim você transforma uma felicidade autocentrada numa felicidade transcendente. Esse é o êxtase dos Budas.
Aliás, se quisermos estender o pescoço e dar uma espiada em como isso vai sofisticar ainda mais no vajrayana, vemos que nem sequer perdemos tempo com a preocupação "puxa, como sou orgulhoso" — você ofereceu tão perfeitamente seu corpo ao dharma através da prática da deidade que qualquer coisa que surja é um festim para ela, mesmo seu orgulho. Isso não quer dizer que você "pode" ter orgulho, mas simplesmente que qualquer coisa pode ser aproveitada para a prática.
Sogyal Rinpoche numa entrevista até comenta da falta de auto-estima dos praticantes ocidentais, com relação a isto. Baixa
auto-estima, evidentemente, é apenas orgulho.
A ação virtuosa produz bem-estar e a pessoa se sente vitoriosa. O passo seguinte, a dedicação de mérito, é que é efetivamente prática espiritual. Não porque a pessoa abandone a vitória ou o bem-estar. Isso seria desperdício. Ela abandona o apego e a crença nestas coisas como algo sólido ou permanente. Isso é dedicar o mérito, e é algo constante. Há méritos que criamos e volta e meia ainda nos assombram com bem-estar — mas a solução não é o mau-humor perante este apego ao que de bom fizemos, e sim a dedicação de
méritos, que alavanca essa felicidade convencional em felicidade transcendente. E quando a vacuidade é, não vou nem dizer reconhecida, mas suspeitada, então isso é mérito e sabedoria infinitos em dedicação infinita.