
2006.05.05 • 00:06 • 0 com
Daniel Alves (um antropólogo conhecido no centro budista) me contou no supermercado que começará um artigo com a citação de uma conversa comigo em que eu disse não mencionar ao IBGE que sou budista1, caso fosse entrevistado – parece que o número de budistas é um ponto importante para as teses em geral. Então Marcelo Träsel (um jornalista amigo de amigos a quem encontrei algumas vezes) pede que eu desenvolva a idéia de Sua Santidade sobre não-proselitismo, e sobre as pessoas manterem suas tradições. Creio que as duas coisas estão relacionadas.
Não tem coisa mais cafona do que se filiar a algo. Uma ex-namorada minha vivia mudando de vida toda semana, "conversa de bêbado" era a expressão que eu usava. Creio que essas tendências todos têm, e mais impressionantemente nas pequenas coisas da vida, como comida e entretenimento. Sempre guardamos a expectativa de sermos surpreendidos, e isso solidifica o apego pela experiência. Em outras palavras, adoramos novidade.
O Dharma do Buda possui um mecanismo de proselitismo muito sutil. Alguns diriam até que é anti-proselitismo. O objetivo do dharma não é dar uma ideologia para as pessoas, e sim apontar o aspecto decadente ou contraditório das formas usuais de postura no mundo. Quando uso a palavra "usual" há uma tendência a se comprometer, novamente, com a novidade. Porém, o sentido que quero trazer é o de que se há um deslize qualquer para uma tentativa de obter resultados, segurança ou confirmação, isso nos torna impermeáveis ao dharma. Como usualmente buscamos estas três coisas, a outra alternativa é incomum, e muitas vezes sequer considerada possível.
Assim, o dharma é de certa forma um âmbito irritante onde nada "usual" funciona. Particularmente, existe uma perspectiva, que alguns consideram a mais sofisticada, que não desperdiça coisa alguma. Então não interessa nem um pouco a novidade: aquilo que já está aqui é suficiente. Isso parece um tanto chato, e de fato o tédio é também pouco valorizado. Hoje em dia se vemos um filme ou TV, parece que precisamos ser conduzidos incessantemente por novas paisagens, caso contrário temos sono. O mesmo com conversas onde se tenta retomar o tema, caso ele se perca, e espaços vazios de ócio absoluto. Essas coisas nos deixam nervosos e irritados. Eu costumo me irritar até mesmo com os ensinamentos budistas, depois que ouvi duas ou três vezes sobre o mesmo tema, o que é descrito (em um determinado ensinamento que ouvi e repassei com certeza mais de 100 vezes) como uma falha grave no caminho, "o pote cheio" – a atitude de "isso eu já sei".
De fato, de todos os amigos que tentei levar para o dharma nenhum ficou, e meu diagnóstico secundário – além de falta de mérito é claro – é que o dharma é muito chato para eles. Eles preferem livros ou música, em que coisas diferentes acontecem o tempo todo. A prática budista é o ápice do tédio, não interessa que forma tenha. Lembro de um retiro em que eu usava os longos períodos de meditação para brincar com minhas próprias idéias, a maioria delas fantasias eróticas. Mesmo imóvel em postura de meditação, em retiro, ouvindo ensinamentos, olhando para a parede, eu buscava apenas entretenimento. Chegou ao ponto em que eu ansiava os períodos de meditação, porque eles eram tão divertidos! Eu não queria nem conversar com as pessoas ou descansar – eu queria retornar ao meu samadhi erótico. Evidentemente que as pessoas ficaram muito surpresas quando eu contei o que estava fazendo. Uma delas, divertidamente surpresa e indignada, até disse: "parece até um Buda, senta tão bem, mas veja só o que têm na cabeça!"
Então não é de surpreender que muita gente se deslumbre com o dharma e encontre uma realidade de cobranças e culpa. Tudo porque não agüentamos o tédio.
E que utilidade tem para o dharma ou para o benefício dos seres nos filiarmos a uma idéia de budismo? Nenhuma, menos ainda uma idéia de budismo excitante, o q ue é uma piada. De fato o budismo pode até ser excitante, mas só até o momento em que ainda não o conhecemos direito. E agora, que nem mais moda é – de fato é uma coisa meio mofada que sobrou dos '90 – quão bacana pode ser sentar em silêncio com coroas hipongas, nerds esotéricos, intelectuais de almanaque e gente perturbada? E que ainda por cima, fora de contato com qualquer realidade, se acham cult por se adornarem de orientalismo (que um dia foi) exótico!
É claro que existe um frescor, uma expansividade e uma leveza em encarar o tédio como riqueza. Mas somos presas de um distúrbio bipolar de torpor e excitação, e lucidez calma, nem relaxada nem tensa é um coroamento da aceitação do tédio. Enquanto queremos que nos divirtam, estamos perdendo tempo.
Um dos aspectos dessa aceitação é o que no zen chamam de "novamente ver as montanhas como montanhas", o terceiro item do treinamento. Primeiro vemos as montanhas como montanhas, mas isso é insatisfatório e re-significamos tudo, vendo montanhas como outra coisa qualquer. Depois abraçamos a visão original, mas agora sem esperar que alguém nos divirta com alguma noção nova. A chatice completa das montanhas é até um pouco reveladora de nossa própria condição, ficamos um pouco curiosos com relação a ela, mas é uma curiosidade que agora não vai se saciar com nenhuma revelação. É uma curiosidade vajra, insatisfazível. Somos felizes como um porco no lodo.
Assim é a religião que nos foi ensinada. Quando nos jogaram ela boca abaixo, cuspimos. Porém, depois de provar sushi e lula, resolvemos que gostamos mesmo é de mingau. A nostalgia abre muitas portas.
Pode ser que o Dalai Lama esteja sendo apenas ardilosamente político, mas em todo caso é certo que nenhuma tradição ganha com palhaços que por dois fins de semana incomodam até não poder mais com seu espalhafatoso "comprometimento" para logo depois achar que videogame ou literatura valem mais a pena. Eu gostaria muito de ver mais pessoas praticando virtude e treinando a mente, mas só apresento minha virgem filha única para rapaz idôneo, com bom dote e maneiras. Mais cuidado ainda tenho em usar o nome do Buda nesses tempos e locais bárbaros.
Não tem coisa mais cafona do que se filiar a algo. Uma ex-namorada minha vivia mudando de vida toda semana, "conversa de bêbado" era a expressão que eu usava. Creio que essas tendências todos têm, e mais impressionantemente nas pequenas coisas da vida, como comida e entretenimento. Sempre guardamos a expectativa de sermos surpreendidos, e isso solidifica o apego pela experiência. Em outras palavras, adoramos novidade.
O Dharma do Buda possui um mecanismo de proselitismo muito sutil. Alguns diriam até que é anti-proselitismo. O objetivo do dharma não é dar uma ideologia para as pessoas, e sim apontar o aspecto decadente ou contraditório das formas usuais de postura no mundo. Quando uso a palavra "usual" há uma tendência a se comprometer, novamente, com a novidade. Porém, o sentido que quero trazer é o de que se há um deslize qualquer para uma tentativa de obter resultados, segurança ou confirmação, isso nos torna impermeáveis ao dharma. Como usualmente buscamos estas três coisas, a outra alternativa é incomum, e muitas vezes sequer considerada possível.
Assim, o dharma é de certa forma um âmbito irritante onde nada "usual" funciona. Particularmente, existe uma perspectiva, que alguns consideram a mais sofisticada, que não desperdiça coisa alguma. Então não interessa nem um pouco a novidade: aquilo que já está aqui é suficiente. Isso parece um tanto chato, e de fato o tédio é também pouco valorizado. Hoje em dia se vemos um filme ou TV, parece que precisamos ser conduzidos incessantemente por novas paisagens, caso contrário temos sono. O mesmo com conversas onde se tenta retomar o tema, caso ele se perca, e espaços vazios de ócio absoluto. Essas coisas nos deixam nervosos e irritados. Eu costumo me irritar até mesmo com os ensinamentos budistas, depois que ouvi duas ou três vezes sobre o mesmo tema, o que é descrito (em um determinado ensinamento que ouvi e repassei com certeza mais de 100 vezes) como uma falha grave no caminho, "o pote cheio" – a atitude de "isso eu já sei".
De fato, de todos os amigos que tentei levar para o dharma nenhum ficou, e meu diagnóstico secundário – além de falta de mérito é claro – é que o dharma é muito chato para eles. Eles preferem livros ou música, em que coisas diferentes acontecem o tempo todo. A prática budista é o ápice do tédio, não interessa que forma tenha. Lembro de um retiro em que eu usava os longos períodos de meditação para brincar com minhas próprias idéias, a maioria delas fantasias eróticas. Mesmo imóvel em postura de meditação, em retiro, ouvindo ensinamentos, olhando para a parede, eu buscava apenas entretenimento. Chegou ao ponto em que eu ansiava os períodos de meditação, porque eles eram tão divertidos! Eu não queria nem conversar com as pessoas ou descansar – eu queria retornar ao meu samadhi erótico. Evidentemente que as pessoas ficaram muito surpresas quando eu contei o que estava fazendo. Uma delas, divertidamente surpresa e indignada, até disse: "parece até um Buda, senta tão bem, mas veja só o que têm na cabeça!"
Então não é de surpreender que muita gente se deslumbre com o dharma e encontre uma realidade de cobranças e culpa. Tudo porque não agüentamos o tédio.
E que utilidade tem para o dharma ou para o benefício dos seres nos filiarmos a uma idéia de budismo? Nenhuma, menos ainda uma idéia de budismo excitante, o q ue é uma piada. De fato o budismo pode até ser excitante, mas só até o momento em que ainda não o conhecemos direito. E agora, que nem mais moda é – de fato é uma coisa meio mofada que sobrou dos '90 – quão bacana pode ser sentar em silêncio com coroas hipongas, nerds esotéricos, intelectuais de almanaque e gente perturbada? E que ainda por cima, fora de contato com qualquer realidade, se acham cult por se adornarem de orientalismo (que um dia foi) exótico!
É claro que existe um frescor, uma expansividade e uma leveza em encarar o tédio como riqueza. Mas somos presas de um distúrbio bipolar de torpor e excitação, e lucidez calma, nem relaxada nem tensa é um coroamento da aceitação do tédio. Enquanto queremos que nos divirtam, estamos perdendo tempo.
Um dos aspectos dessa aceitação é o que no zen chamam de "novamente ver as montanhas como montanhas", o terceiro item do treinamento. Primeiro vemos as montanhas como montanhas, mas isso é insatisfatório e re-significamos tudo, vendo montanhas como outra coisa qualquer. Depois abraçamos a visão original, mas agora sem esperar que alguém nos divirta com alguma noção nova. A chatice completa das montanhas é até um pouco reveladora de nossa própria condição, ficamos um pouco curiosos com relação a ela, mas é uma curiosidade que agora não vai se saciar com nenhuma revelação. É uma curiosidade vajra, insatisfazível. Somos felizes como um porco no lodo.
Assim é a religião que nos foi ensinada. Quando nos jogaram ela boca abaixo, cuspimos. Porém, depois de provar sushi e lula, resolvemos que gostamos mesmo é de mingau. A nostalgia abre muitas portas.
Pode ser que o Dalai Lama esteja sendo apenas ardilosamente político, mas em todo caso é certo que nenhuma tradição ganha com palhaços que por dois fins de semana incomodam até não poder mais com seu espalhafatoso "comprometimento" para logo depois achar que videogame ou literatura valem mais a pena. Eu gostaria muito de ver mais pessoas praticando virtude e treinando a mente, mas só apresento minha virgem filha única para rapaz idôneo, com bom dote e maneiras. Mais cuidado ainda tenho em usar o nome do Buda nesses tempos e locais bárbaros.
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1. ^ Tomei refúgio, mas para mim budista é quem é bom praticante, então não estaria mentindo ao IBGE

Funniest mindless movie of the last few years. McLovin is the best, and the other guys grew on me.
In his job he needs to undervalue the suffering of others in order to make more money. Then there’s the smell, the ass and the eye. The degree of objectification of desire is in direct proportion to the self-debasement of the indulger. By degrading the other, he nullifies himself. The very indifference to the overjealous ones, the suppressed recalcitrant losers of the world, is what causes their victims to exist. Great disturbing movie.
A lost science fiction PBS movie with Taoist undertones is a real find, right? A guy discovers his dreams change reality—when he wakes up he finds himself in a world where the content of his dreams have actually happened. He of course gets scared after a couple of nightmares, seeks relief in drugs, and then, because of them, is lead to a psychiatrist. 
Here's for all the sissy Apple lovers out there... This is the ultimate design for my old Duron, which faithfully downloaded well over one terabyte (mostly movies, 1300+) always on 24/7/365 over the last four years. It also runs Apache and is a file and printer server, as well as a router for my home network (with four, also damn old and beautiful computers). Sometimes I dust it off with a vacuum cleaner.
I really enjoyed 
I have read the article on
In imdb a user commented: "Annoying little transition into some sort of regurgitated independent film values finds this shallow project from Brad Silberling offering little and providing less in this embarrassingly exploitive work." I agree, yet it is still watchable — even more so if you understand how clichê is the fabricated spontaneity in it. It is as if independent movie has aquired its own hollywood-like formulaicism. So it kind of becomes an interestingly consumated aesthetic portrail of so many cult-status fabricated stylishness examples we see around. Many people liked 





