
2007.07.31 • 04:52 • 0 com
Quais os sentidos de espiritualismo e religiosidade no budismo? Como é observada a chamada "fé cristã"?Bom, nenhuma das duas palavras existe no contexto budista, o que fazemos é no máximo uma adaptação capenga. Mas enfim, geralmente é só o que temos.
A noção de "espírito" vem de uma dicotomia, o dualismo matéria/espírito. A noção de que haja duas substâncias é um dos quatro extremos a serem evitados. Os outros três são a noção de que haja uma substância apenas, muitas ou nenhuma. O problema é que, quando em geral atacamos visões ditas espiritualistas, as pessoas muito normalmente recaem no outro extremo usual: o fisicalismo ou materialismo. Ele então pode ser facilmente descartado através das visões supostamente monistas (adota-se, temporariamente, um extremo para combater o outro) de algumas formas de budismo: isto é, o "apenas mente". Assim, para simplificar, isto é, para fins didáticos—e essa certamente não é a visão mais sofisticada dentro do budismo, mas serve para este propósito—, só haveria uma substância, que é a "luminosidade" ou "espírito", e a percepção de matéria e toda observação em termos físicos são meros casos particulares dessa mesma substância, e não outras substâncias. Assim o budismo não cai nos extremos do espiritualismo e do materialismo.
Ainda assim existem certas dicotomias em determinados níveis de ensinamentos. Isto é, no budismo o “além dos extremos” é constantemente depurado. No primeiro giro da roda do dharma, o hinayana, temos uma clara contraposição entre o "tolo" e o “sábio”, e o samsara e o nirvana. Assim, boa parte da prática está ligada a nos afastar das impurezas da vida mundana e buscar uma experiência aparentemente desvinculada do mundo e de suas coisas, uma espécie de indiferença (ou pelo menos é disso que são acusados frequentemente os proponentes de visões desse tipo, embora seja possível argumentar em contrário). O caminho do meio (madhyamika) é o que o sábio segue na direção do nirvana, e os extremos são o que comanda a vida do tolo no samsara. Através do esforço próprio e da repulsa pelo samsara, o praticante avança para uma vida de santidade.
Já a segunda volta do dharma, sofisticando os ensinamentos, vai além dessa contraposição direta entre samsara e nirvana, renunciando também ao nirvana. Assim, tanto samsara quanto nirvana são renunciados, e muitas vezes chega-se a falar em identidade entre samsara e nirvana—o que, segundo consta nos sutras mahayana, causou ataques cardíacos em proponentes dogmáticos do primeiro giro.
Outro aspecto de dicotomia são "as duas realidades", a realidade última e a realidade relativa. Aqui as coisas se tornam mais complexas. Não poderiam ser duas substâncias, já que apenas do ponto de vista da realidade relativa é que existem duas realidades—do ponto de vista da realidade absoluta, a realidade relativa é falsa. Este é portanto um recurso didático mais freqüentemente utilizado pelas interpretações madhyamika svatantrika (caminho do meio dito “dogmático” porque leva a uma afirmação do além dos extremos, e não a um além dos extremos além da afirmação e da negação), digo, é atribuída a essa escola por Khenpo Ngaga, embora seja bastante comum ouvirmos toda sorte de ensinamentos utilizarem dessa didática dupla. Isto é, já que todos os ensinamentos que podem ser verbalizados dizem respeito a realidade relativa, a verdade absoluta não pode ser negada nem afirmada de qualquer forma—não é um conhecimento ou experiência privada que um ser possa transmitir ou impactar a outro ser, é uma experiência "não-privada". Olhar para os ensinamentos e encontrar o além dos extremos é impossível, é preciso olhar através dos ensinamentos, para o que eles apontam, não o que eles representam em termos do que dizem em reação ao que pensamos ou em relação uns aos outros. O pinheiro é pontudo para que a neve não fique presa aos galhos e os quebre. Daí a visão dos budas dizer respeito a "suchness" ou "talidade", que reconhece todas as visões relativas pela compaixão enquanto da mesma forma não renuncia à realidade absoluta revelada da sabedoria. As duas palmas em oração são a união entre das duas realidades, de samsara e nirvana, mas essencialmente a representação da compaixão que penetra o samsara e da sabedoria que revela o nirvana como uma única coisa.
Outro enfoque do mesmo tema é o famoso “forma (ou qualquer dos outros skandas) e vacuidade”, isto é, a identidade entre as duas coisas é o que quer dizer "caminho do meio", não sendo uma média ou mistura entre elas, mas um "além dos extremos" que não é nem um deles, nem o outro, nem ambos nem nenhum. É um tipo de identidade ligada a inseparatividade ou coemergência. É um salão de baile onde se pode dançar tango ou salsa, mas o salão segue o mesmo—o salão possibilita a dança, mas só é chamado de "salão de dança" porque dança ocorre ali, caso contrário, seria uma quadra de basquete..
Por outro lado, aliamos a palavra "espiritualidade" com o que há de "mais elevado". Com a elite, os aryas. Mas não necessariamente precisamos falar de uma oligarquia clerical. Muita gente sequer sabia que Patrul Rinpoche era um grande tulku, o tratavam como o mendigo que aparentava ser. Por outro lado ele criticava exatamente as oligarquias clericais, que em seu tempo estavam degeneradas. Assim, a prática da espiritualidade é a prática da compaixão, isto é, vai desde o desenvolvimento de progressiva empatia até a percepção da inseparatividade, e o ativismo em todos os níveis. Então é uma coisa bem mais pragmática do que qualquer noção de alma, espírito, sobrenatural, ou energia sutil—embora, como meio hábil, o budismo possa incorporar qualquer visão que os seres tenham, correta, incorreta, contraditória ou não, para trazer benefício aos seres (isso não quer dizer coadunar, mas "saber trabalhar com"). Algumas deidades seguram um pedaço de intestino nas mãos, representando a capacidade de digerir tudo e qualquer coisa que os seres tragam e transformar em realidade última. Quando chegamos atropelados ao hospital, o médico não diz “ah, esse não, tá muito feio, deixa lá na estrada”. Todo sofrimento do mundo é um banquete que o Buda vai devorar, digerir e enfim defecar na privada atemporal da mandala da perfeição. Isso inclui até mesmo ideologias e opiniões.
Também, normalmente, religião está ligada a um criador, um revelador, um formulador do mundo. No caso do budismo, usamos a palavra quase que no seu sentido usual mais pejorativo (aquilo de que as pessoas normalmente reclamam quando falam mal de religião): o aspecto meramente formal, uma tradição ou conjunto de práticas em grupo ou solitárias (no caso do budismo, no sentido do treinamento da mente para o revelar da compaixão/sabedoria). Isto é, como não há uma doutrina de revelação ou uma lei, uma formulação a respeito da realidade, preceitos ditados por seres superiores, etc, o que chamamos de religião é meramente esse aspecto formal (por isso "pejorativo" no sentido convencional), ainda que, de fato, não haja mais nada no budismo além desse aspecto formal, exatamente porque o aspecto não-formal não pertence ao budismo e não pode ser fabricado... e não se pode falar dele sem deturpá-lo, e é ele que é apontado, mas não é ele que é representado pelos ensinamentos, etc, etc, etc. Isso naturalmente, novamente, inclui dois aspectos, o de devoção e fé, e o de "reconectar". Como não há ser supremo, o reconectar do budismo ocorre com o estado natural das coisas, isto é, nos desvinculando das máculas adventícias, vemos como as coisas são. Em outras palavras, o budismo-religião, o aspecto meramente formal, ou tudo que podemos representar em símbolos um para os outros, nos coloca na posição de reconhecer que há um problema a ser resolvido: devemos limpar nossas percepções e reconhecer as coisas exatamente como são, desvinculadas de opiniões e energias de hábito que distorcem a percepção. Mas a porca torce o rabo mais uma vez. Mesmo essa forma causal de ensinar é desafiada pelo próprio budismo! Então o budismo se supera enquanto religião ao não reconhecer, em seus ensinamentos mais sofisticados (que não se poderia dizer religiosos), sujeira em lugar algum. A união entre o aspecto definitivo e temporário (religioso) dos ensinamentos, e o fato de que uma visão não exclui a outra, é a maior peculiaridade dos ensinamentos budistas—e porque ela não cai em extremos. O praticante que se fixa ao aspecto temporário "não é diferente de uma vaca", e o praticante que se fixa ao aspecto definitivo (em detrimento do temporário) "se perde na visão".
Como os fenômenos são todos "intercriados", cada um deles coemergindo com todos os outros, cada um deles refletindo, portanto, cada um dos outros, a forma particular dos ensinamentos, como uma bolha de inderdependências particulares, é construída pelo mérito dos seres e a compaixão dos Budas, e incessantemente aponta para este reconhecimento. Ela nada mais é do que outro castelo de areia, um castelo de areia bem peculiar, que aponta ou demonstra o reconhecimento desse processo todo, e portanto, é uma fenômeno peculiarmente valioso. Uh lá lá, que beleza!
Assim o aspecto de devoção e fé implica a confiança na possibilidade daquela limpeza (falsa ou aparente) ser efetuada e esse castelo ser reconhecido. Particularmente, os exemplos de que isso tenha sido feito (o Buda e sua linhagem) são louvados por essa razão. Louvar o Buda da forma correta, reconhecendo que ele é quem aponta para essa natureza livre de especulação, concepções arbitrárias e que luminosamente dança tal como um diamante perfeitamente lapidado, é a prática essencial que se manifesta e se transforma em miríades de formas de acordo com as necessidades e inclinações dos seres.
Enfim, a nomenclatura que se utiliza em português e inglês precisa ser constantemente desafiada, já que nossos lexos e gramáticas surgem da tradição greco-romana, judaico-cristã—"essencialmente" essencialista. Assim é preciso fazer uma constante re-significação dos termos. A "essência do Buda", ou tatagatagharba, natureza de Buda, é exatamente a vacuidade luminosa, isto é, a ausência de fixação, a ausência de essência, a não existência de um eu, uma alma, um ser supremo.
Com relação a fé cristã, existe uma discussão de dois milênios sobre uma possível dicotomia entre fé e razão. Esta discussão nunca ocorreu no budismo. Fé é apenas uma disposição de abertura (que pode e deve ser objetivo, também, de treinamento), que perfeitamente inclui evidência empírica (isto é, mesmo o nexo causal é função de fé, já que nada garante ele próprio! Em outras palavras, acreditar que o calor de um fogão vai cozinhar um ovo é também "fé" para o budismo!) Por outro lado, o que podemos chamar de êxtase da fé, bem como a prática de compaixão, são bem semelhantes ao cristianismo. A visão budista é a de que os cristãos estão acumulando tremendo mérito ao ver Jesus como nada diferente do criador—mesmo considerando que não haja criador algum, e eles de fato estejam enganados quanto a isso (como os próprios budistas se auto-enganam com relação ao processo de "limpeza"), se por acaso os budistas estiverem certos em seus castelos de areia e disposições formais perfeitamente vazios de qualquer conteúdo arbitrário de realidade além das aparências. Assim as experiências religiosas respectivas não diferem tanto (como se pode ver pelo livro "O Dalai Lama fala de Jesus"), exatamente porque o sistema digestivo do Buda é capaz de digerir qualquer doutrina e extrair nutrientes (isto é, reconhecer algo de bom ali). Afinal, se você é iluminado o suficiente, nenhuma mulher é feia.
Quanto mais somos capazes de ver fora de nós a realização que aspiramos (ou no caso dos cristãos, a companhia que desejam pela eternidade), mais isso indica que essa realização faz parte de nós. Por outro lado, quanto mais identificamos isso em nós mesmos, mais nos aproximamos da insanidade e do sofrimento. Assim, o Buda é o mais humilde servo de todos os seres sencientes, exatamente porque da posição dele ele vê a todos como Budas. E como começamos nesse caminho? Reconhecendo (externamente) ao menos um Buda, o próprio Buda histórico, no budismo em geral, ou o Buda em pessoa no caso do vajrayana (e possivelmente nessa altura já serão bem mais do que um ou dois Budas). Esse Buda externo é o primeiro sinal de que podemos eventualmente vir a reconhecer um Buda interno.
Em união com esse aspecto temporário, gradual, praticamos o koan "se avistar um Buda, mate-o!" Isto é, assassinamos o extremo de reconhecer as coisas como internas ou externas. Enfim, não sobra nenhuma fixação ou extremo a que se vincular, e essa é a essência da penetrar na mandala e receber as bênçãos de todos os vitoriosos dos três tempos.
"Apenas lembre o professor" e "mantenha um bom coração" é toda a prática que se precisa.
Com a aspiração de que isso produzisse alguma confusão libertadora nos seres com a grande fortuna de se interessarem pelo dharma e com a pouca fortuna de se depararem comigo, escrevi isso absolutamente sóbrio, juro.
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Funniest mindless movie of the last few years. McLovin is the best, and the other guys grew on me.
In his job he needs to undervalue the suffering of others in order to make more money. Then there’s the smell, the ass and the eye. The degree of objectification of desire is in direct proportion to the self-debasement of the indulger. By degrading the other, he nullifies himself. The very indifference to the overjealous ones, the suppressed recalcitrant losers of the world, is what causes their victims to exist. Great disturbing movie.
A lost science fiction PBS movie with Taoist undertones is a real find, right? A guy discovers his dreams change reality—when he wakes up he finds himself in a world where the content of his dreams have actually happened. He of course gets scared after a couple of nightmares, seeks relief in drugs, and then, because of them, is lead to a psychiatrist. 
Here's for all the sissy Apple lovers out there... This is the ultimate design for my old Duron, which faithfully downloaded well over one terabyte (mostly movies, 1300+) always on 24/7/365 over the last four years. It also runs Apache and is a file and printer server, as well as a router for my home network (with four, also damn old and beautiful computers). Sometimes I dust it off with a vacuum cleaner.
I really enjoyed 
I have read the article on
In imdb a user commented: "Annoying little transition into some sort of regurgitated independent film values finds this shallow project from Brad Silberling offering little and providing less in this embarrassingly exploitive work." I agree, yet it is still watchable — even more so if you understand how clichê is the fabricated spontaneity in it. It is as if independent movie has aquired its own hollywood-like formulaicism. So it kind of becomes an interestingly consumated aesthetic portrail of so many cult-status fabricated stylishness examples we see around. Many people liked 





